Sobre
secas, severinos e vontade de mudar
A
maior seca dos últimos 40 anos! Isto é um pouco do que se houve e se lê em
diversos meios de comunicação em relação a forte estiagem que começa a dar os
sinais mais intensos em todo esse espaço de climas semiáridos e subúmidos secos
que temos na Paraíba, no restante da Região Nordeste e também no norte de Minas
Gerais. O que espanta, por incrível que pareça, não é a presença desse
fenômeno, cuja temporalidade já é sabida pela comunidade científica a muito
tempo: de 11 a 12 anos temos uma seca mais prolongada nessa parte do Brasil.
Verdadeiramente espantoso (para não dizer vergonhoso) é o fato de nos anos de
“chuva e seca normais” não serem tomadas medidas intensas que preparem os
agropecuaristas a não verem a sua produção sofrer tanto os efeitos desse fenômeno
inevitável.
Por
conta disso, nesse período é costumeiro (para muitos até enfadonho) vermos a
reprodução do mesmo filme nos meios de comunicação, cuja resposta também já
conhecemos: deslocamento de carros-pipa para apaziguar um pouco a falta de água
dos sertanejos, os severinos do pernambucano João Cabral de Melo Neto;
construção de obras para amenizar o problema da população menos favorecida
(embora também possa beneficiar mais os grandes que os pequenos produtores,
como todos sabemos), utilizando dinheiro público cuja licitação não foi
obrigatória, já que estamos num momento de calamidade...Mas o que é mais calamitoso?
A situação que está acontecendo novamente ou a inoperância que deixa esse
quadro se repetir mais uma vez?
Efetivamente
ainda não desenvolvemos de forma maciça e abrangente uma cultura de convivência
com a seca, sabendo produzir de forma sustentável nos espaços onde a falta de
água é um processo intrínseco á sua existência, tal como a chuva é nas regiões
úmidas. Pensar dessa forma seria um sonho se não soubéssemos que em outras
regiões de países até menos desenvolvidos que o Brasil e de clima muito mais
seco que o nosso, a exemplo da Tunísia, se consegue a séculos estabelecer um
quadro onde isso faz parte da sua realidade. Portanto, para além do sonho, esse
e outros exemplos espalhados pelo mundo têm de nos fazer refletir e agir para
mudarmos a nossa realidade.
Piorando
ainda mais a situação, a expansão da praga da cochonilha vem exterminando a
largos passos com a palma-forrageira, para muitos o único alimento com que o
gado poderia contar nessas fases em que a produção forrageira da caatinga fica
abaixo do normal. Se o quadro não é bom, deve ficar pior, pois muitos
pecuaristas, para não verem os animais morrendo de fome e também não vendê-los
a “preço de banana” a alguns dos aproveitadores dessa situação que percorrem os
sertões como urubus procurando carniça, não pensarão duas vezes em derrubar o
xique-xique, o facheiro e o mandacaru, queimando os seus espinhos e dando o
restante para vacas, ovelhas e cabras cada vez mais famintas, prática
tradicional nessas terras, a qual resultou na diminuição ou mesmo extinção de
muitas dessas espécies vegetais em diversas áreas.
Para
muitos ambientalistas e pesquisadores apaixonados pelo Bioma Caatinga, a
simples menção ao que foi descrito anteriormente sobre o destino de muitas das
nossas cactáceas nativas, entre outras famílias de plantas exclusivas dessa
parte do Brasil, é visto como um pesadelo ainda maior, dada a situação de
profunda degradação generalizada que grande parte dos ecossistemas onde estão
inseridas já apresentam. Nesse caso, consideramos que existe uma ligação direta
entre o que acontece com esse Bioma e muitos dos homens que o habitam: ao
degradar-se um, o outro segue o mesmo destino. Entretanto, para o sertanejo
essa morte não é necessariamente física, mas psicológica, pois ao tornar-se
mais dependente de benefícios públicos e favores políticos para viver nessas
terras, transforma-se em um cidadão pela metade, uma vez que não é o verdadeiro
dono de muitas das decisões que teve e tem de tomar.
Mesmo
assim, diferente do que acontece com o gado no Nordeste Seco, a alguns anos o
espectro da falta de alimento para as pessoas é uma possibilidade muito
pequena, graças a uma série de políticas públicas que vem acontecendo e tem
logrado êxito na transferência de renda para os menos afortunados
financeiramente, o que parcialmente é digno de elogio. Infelizmente, o mesmo
não aconteceu em relação a dotar os produtores de conhecimentos que tornassem a
sua produção menos fragilizada diante da incerteza das chuvas. E não é por
falta de conhecimento produzido nas universidades e institutos de pesquisa.
Falta sim um grande plano de difusão dos saberes desenvolvidos nessas
instituições, nas ONGs e por alguns indivíduos que estão a anos-luz à frente das
idéias tradicionais que tem dominado o modo de se viver nessas terras.
Para
que isso possa efetivamente acontecer, falta também e talvez principalmente, vontade
política para que esses conhecimentos possam ser abrangentes o suficiente para
que o sertanejo possa viver dignamente do seu trabalho, da sua própria
capacidade de se manter. Sem isso, continuaremos a ver o filme de sempre na
próxima grande seca que, como já mencionamos anteriormente, não é de hoje que a
Ciência já sabe quando ocorrerá novamente.
Para esse filme
mudar, é preciso então que se aceite a seca como dominante e a água como
exceção, antíteses que fazem parte da rotina natural do Domínio das Caatingas. Devemos
portanto criar uma infraestrutura para convivência com as estiagens comuns e as
mais fortes, o que significa uma mudança radical na forma de ocuparmos e
organizarmos o espaço, aproveitando os recursos e o conhecimento existente .
Quando a população
dessas terras e principalmente os que têm poder político para canalizar os
anseios das pessoas, transformando-as em ações, desenvolverem mais fortemente intervenções
que resultem em uma produção sustentável, compatível com a natureza dessas
terras, os sertanejos poderão efetivamente se tornar cidadãos completos e as
cenas que a décadas se repetem deixarão de ser propagadas, uma vez que não
estarão mais condizentes com a realidade.
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