terça-feira, 30 de outubro de 2012

A seca artigo do Prof. Bartolomeu


Sobre secas, severinos e vontade de mudar

A maior seca dos últimos 40 anos! Isto é um pouco do que se houve e se lê em diversos meios de comunicação em relação a forte estiagem que começa a dar os sinais mais intensos em todo esse espaço de climas semiáridos e subúmidos secos que temos na Paraíba, no restante da Região Nordeste e também no norte de Minas Gerais. O que espanta, por incrível que pareça, não é a presença desse fenômeno, cuja temporalidade já é sabida pela comunidade científica a muito tempo: de 11 a 12 anos temos uma seca mais prolongada nessa parte do Brasil. Verdadeiramente espantoso (para não dizer vergonhoso) é o fato de nos anos de “chuva e seca normais” não serem tomadas medidas intensas que preparem os agropecuaristas a não verem a sua produção sofrer tanto os efeitos desse fenômeno inevitável.

Por conta disso, nesse período é costumeiro (para muitos até enfadonho) vermos a reprodução do mesmo filme nos meios de comunicação, cuja resposta também já conhecemos: deslocamento de carros-pipa para apaziguar um pouco a falta de água dos sertanejos, os severinos do pernambucano João Cabral de Melo Neto; construção de obras para amenizar o problema da população menos favorecida (embora também possa beneficiar mais os grandes que os pequenos produtores, como todos sabemos), utilizando dinheiro público cuja licitação não foi obrigatória, já que estamos num momento de calamidade...Mas o que é mais calamitoso? A situação que está acontecendo novamente ou a inoperância que deixa esse quadro se repetir mais uma vez?

Efetivamente ainda não desenvolvemos de forma maciça e abrangente uma cultura de convivência com a seca, sabendo produzir de forma sustentável nos espaços onde a falta de água é um processo intrínseco á sua existência, tal como a chuva é nas regiões úmidas. Pensar dessa forma seria um sonho se não soubéssemos que em outras regiões de países até menos desenvolvidos que o Brasil e de clima muito mais seco que o nosso, a exemplo da Tunísia, se consegue a séculos estabelecer um quadro onde isso faz parte da sua realidade. Portanto, para além do sonho, esse e outros exemplos espalhados pelo mundo têm de nos fazer refletir e agir para mudarmos a nossa realidade.

Piorando ainda mais a situação, a expansão da praga da cochonilha vem exterminando a largos passos com a palma-forrageira, para muitos o único alimento com que o gado poderia contar nessas fases em que a produção forrageira da caatinga fica abaixo do normal. Se o quadro não é bom, deve ficar pior, pois muitos pecuaristas, para não verem os animais morrendo de fome e também não vendê-los a “preço de banana” a alguns dos aproveitadores dessa situação que percorrem os sertões como urubus procurando carniça, não pensarão duas vezes em derrubar o xique-xique, o facheiro e o mandacaru, queimando os seus espinhos e dando o restante para vacas, ovelhas e cabras cada vez mais famintas, prática tradicional nessas terras, a qual resultou na diminuição ou mesmo extinção de muitas dessas espécies vegetais em diversas áreas.

Para muitos ambientalistas e pesquisadores apaixonados pelo Bioma Caatinga, a simples menção ao que foi descrito anteriormente sobre o destino de muitas das nossas cactáceas nativas, entre outras famílias de plantas exclusivas dessa parte do Brasil, é visto como um pesadelo ainda maior, dada a situação de profunda degradação generalizada que grande parte dos ecossistemas onde estão inseridas já apresentam. Nesse caso, consideramos que existe uma ligação direta entre o que acontece com esse Bioma e muitos dos homens que o habitam: ao degradar-se um, o outro segue o mesmo destino. Entretanto, para o sertanejo essa morte não é necessariamente física, mas psicológica, pois ao tornar-se mais dependente de benefícios públicos e favores políticos para viver nessas terras, transforma-se em um cidadão pela metade, uma vez que não é o verdadeiro dono de muitas das decisões que teve e tem de tomar.

Mesmo assim, diferente do que acontece com o gado no Nordeste Seco, a alguns anos o espectro da falta de alimento para as pessoas é uma possibilidade muito pequena, graças a uma série de políticas públicas que vem acontecendo e tem logrado êxito na transferência de renda para os menos afortunados financeiramente, o que parcialmente é digno de elogio. Infelizmente, o mesmo não aconteceu em relação a dotar os produtores de conhecimentos que tornassem a sua produção menos fragilizada diante da incerteza das chuvas. E não é por falta de conhecimento produzido nas universidades e institutos de pesquisa. Falta sim um grande plano de difusão dos saberes desenvolvidos nessas instituições, nas ONGs e por alguns indivíduos que estão a anos-luz à frente das idéias tradicionais que tem dominado o modo de se viver nessas terras.

Para que isso possa efetivamente acontecer, falta também e talvez principalmente, vontade política para que esses conhecimentos possam ser abrangentes o suficiente para que o sertanejo possa viver dignamente do seu trabalho, da sua própria capacidade de se manter. Sem isso, continuaremos a ver o filme de sempre na próxima grande seca que, como já mencionamos anteriormente, não é de hoje que a Ciência já sabe quando ocorrerá novamente.

Para esse filme mudar, é preciso então que se aceite a seca como dominante e a água como exceção, antíteses que fazem parte da rotina natural do Domínio das Caatingas. Devemos portanto criar uma infraestrutura para convivência com as estiagens comuns e as mais fortes, o que significa uma mudança radical na forma de ocuparmos e organizarmos o espaço, aproveitando os recursos e o conhecimento existente .

Quando a população dessas terras e principalmente os que têm poder político para canalizar os anseios das pessoas, transformando-as em ações, desenvolverem mais fortemente intervenções que resultem em uma produção sustentável, compatível com a natureza dessas terras, os sertanejos poderão efetivamente se tornar cidadãos completos e as cenas que a décadas se repetem deixarão de ser propagadas, uma vez que não estarão mais condizentes com a realidade.